De Preso do Sistema a Gestor do Leviatã: A Metamorfose Política de José de Abreu

O Símbolo e a Contradição: Da Cela de 68 ao Palanque de 24

Pode um indivíduo que se orgulha de ter sido detido por um aparato de força estatal aspirar, décadas depois, a controlar as engrenagens desse mesmo aparato, apenas sob uma nova bandeira ideológica? A pré-candidatura do ator José de Abreu a deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT), anunciada com uma fotografia de sua prisão em 1968, encapsula uma das mais profundas e recorrentes contradições da política moderna. A imagem, evocativa de uma luta contra a opressão de um regime militar, é ressignificada como um trunfo para ingressar na estrutura de poder que, em sua essência, mantém o monopólio da coação sobre os cidadãos. A legenda “Meu passado me condena”, usada com ironia, talvez seja mais literal do que o pretenso candidato imagina, não por sua oposição a um governo específico, mas por sua aparente falha em reconhecer que o problema fundamental nunca foi a identidade do governante, mas a própria existência de um aparato com o poder de prender, taxar e regulamentar a vida de milhões de pessoas sem o seu consentimento individual.

A transição de prisioneiro de um sistema para aspirante a gestor desse mesmo sistema revela uma crença perigosa: a de que a coerção estatal pode ser virtuosa, desde que exercida pelas mãos “certas” e com as justificativas “corretas”. Esta é a falácia central que sustenta todo o espectro político-partidário. A luta não é pela liberdade individual contra a opressão coletiva, mas sim por qual grupo terá o privilégio de ditar as regras e extrair os recursos da sociedade. A máquina estatal, seja ela operada por militares ou por políticos eleitos democraticamente, funciona sob a mesma premissa: a subjugação do indivíduo à vontade do coletivo, manifestada através da lei positiva. Como aponta a análise crítica dos sistemas políticos, a democracia não elimina a dominação; ela apenas a torna mais sutil e psicologicamente palatável, criando a ilusão de que o governado é, de alguma forma, também o governante. “[Hans-Hermann HOPPE | Democracy: The God That Failed]”

Portanto, a celebração da prisão como credencial para um cargo político é um espetáculo que desvia a atenção da questão principal. O verdadeiro debate não deveria ser sobre qual facção política é mais legítima para administrar o monopólio da violência, mas sobre a própria legitimidade desse monopólio. Ao se candidatar, o ator não propõe desmantelar as celas, mas sim obter as chaves. Ele busca o poder de legislar, que, em última análise, é o poder de usar a força policial e judicial para impor comportamentos e confiscar propriedade. A foto de 1968 representa a resistência a uma forma de poder, enquanto a candidatura de 2024 representa a ambição por outra. A essência coercitiva do Estado permanece intocada, aguardando apenas seu próximo administrador para continuar o ciclo de controle e expropriação, independentemente da retórica de “progresso” ou “justiça social” que o acompanhe.

A Natureza do Debate Político: Agressão como Ferramenta de Ascensão

O histórico de José de Abreu é marcado por uma série de confrontos públicos que vão muito além da divergência de ideias, escalando para a agressão física e verbal. O episódio mais notório, no qual cuspiu em um casal num restaurante em 2016, não pode ser descartado como um simples “momento de cabeça quente”. Ele serve como um microcosmo da mentalidade que permeia a arena política contemporânea: a crença de que a discordância ideológica justifica a violação dos limites pessoais e da propriedade alheia — neste caso, a soberania sobre o próprio corpo. Este ato, uma violação flagrante do princípio mais básico da convivência pacífica, reflete a mesma lógica subjacente à ideologia que ele defende: a de que fins coletivistas podem justificar meios agressivos contra indivíduos. A política, especialmente em sua vertente mais intervencionista, é, em sua essência, a sistematização dessa lógica. Ela substitui a persuasão e a troca voluntária pela imposição e pela força.

A busca pelo poder político é, inerentemente, uma busca pela autorização para cometer o que Frédéric Bastiat chamou de “espoliação legal”. O político não busca criar valor através de trocas voluntárias no mercado; ele busca obter o poder de redirecionar o valor criado por outros, através de impostos e regulamentações. “[Frédéric BASTIAT | The Law]”. A agressividade exibida no âmbito privado por figuras como Abreu é, portanto, um reflexo consistente da agressividade inerente ao projeto político que elas representam. Quando um indivíduo se sente no direito de agredir fisicamente um oponente por palavras, não é um grande salto lógico para que ele se sinta no direito de usar o aparato estatal para confiscar a propriedade de um grupo em nome de outro, ou para proibir atividades pacíficas que desaprove. A mentalidade é a mesma; apenas a escala da agressão é diferente. O cuspe é a versão artesanal da coerção que, uma vez no poder, se torna industrializada na forma de leis, decretos e agências reguladoras.

Os inúmeros embates com colegas de profissão e personalidades públicas, como Regina Duarte, Glória Perez e Cássia Kis, também ilustram a deterioração do discurso cívico promovida pela politização de todas as esferas da vida. No universo da política partidária, não existem adversários com quem se debate, mas inimigos a serem silenciados e destruídos. A comparação de Glória Perez ao assassino de sua filha por uma suposta afinidade política é um exemplo extremo dessa desumanização do oponente. Essa tática não é acidental; é uma consequência direta de um sistema onde o vencedor de uma eleição ganha o poder de impor sua vontade sobre o perdedor. Em um mercado livre, a cooperação é a chave para o sucesso mútuo. Na democracia, o conflito é o motor, pois o jogo é de soma zero: para que um grupo ganhe poder e privilégios, outro deve necessariamente perdê-los. A carreira de conflitos de Abreu é, nesse sentido, um currículo perfeito para a política como ela é, e não como se idealiza que seja.

O Incidente no Restaurante: Uma Microcosmologia da Coerção

O ato de cuspir em outra pessoa é uma agressão direta e inequívoca. Ele viola a soberania individual de forma íntima e humilhante. Do ponto de vista do direito natural, que reconhece o indivíduo como proprietário de si mesmo, tal ato é uma invasão de propriedade, tão ilegítima quanto um roubo ou uma agressão física com os punhos. A justificativa de ter sido provocado verbalmente não atenua a natureza da ação, pois ela representa a iniciação de força física em resposta a palavras. Este é um princípio fundamental: a resposta proporcional à fala é a fala; a força só é legítima em autodefesa contra uma agressão física iminente ou em andamento. A incapacidade de respeitar essa distinção no nível interpessoal levanta sérias questões sobre a capacidade de um indivíduo de respeitar os direitos de milhões de cidadãos quando armado com o poder do Estado.

A defesa de um projeto político que visa a intervenção maciça na economia e na vida privada requer, por definição, a violação sistemática dos direitos de propriedade. A taxação é o confisco de propriedade sob ameaça de violência. A regulamentação é o controle da propriedade alheia. O planejamento central é a anulação das decisões dos proprietários individuais. A mentalidade que justifica o cuspe como resposta a uma ofensa é a mesma que justifica o imposto sobre herança como resposta à “desigualdade” ou o controle de preços como resposta à “ganância”. Em todos os casos, um agente decide, unilateralmente, violar os direitos de outro para atingir um fim que considera superior. A escala muda, o princípio não. A candidatura de alguém com este histórico expõe a verdadeira face do poder político: a legitimação da agressão como ferramenta de engenharia social.

A reação pública ao incidente e o subsequente pedido de desculpas, enquadrado como um lapso momentâneo, perdem o ponto central. A questão não é se o ator é uma pessoa “boa” ou “má” em seu íntimo, mas sim se a filosofia que ele abraça e a conduta que ele exibe são compatíveis com uma sociedade livre e pacífica. Uma sociedade baseada na cooperação voluntária depende do respeito mútuo pelos direitos individuais. Um sistema político que normaliza e recompensa a agressão, seja ela verbal, física ou legal, corrói as bases dessa cooperação. O incidente no restaurante, longe de ser uma anomalia, foi uma demonstração pública e crua da primazia da vontade sobre o direito, um pressuposto essencial para qualquer aspirante a legislador em um Estado intervencionista.

A Palavra como Arma: Conflitos e a Erosão do Discurso

A longa lista de desavenças públicas de José de Abreu, motivadas quase sempre por divergências políticas, é um sintoma da tribalização que a democracia de massas fomenta. Quando tudo é decidido politicamente, cada aspecto da vida se torna um campo de batalha. A escolha de um filme, a opinião sobre uma política pública, o apoio a um artista — tudo é filtrado através de uma lente ideológica que divide o mundo entre aliados e inimigos. Figuras como Regina Duarte ou Zezé Di Camargo não são vistas como indivíduos com opiniões diferentes, mas como representantes de um “espectro político” inimigo, tornando-se alvos legítimos para ataques que visam não refutar seus argumentos, mas aniquilar sua reputação.

Essa abordagem destrói a possibilidade de um diálogo racional. O objetivo não é mais convencer através da lógica e da evidência, mas sim intimidar, humilhar e silenciar a oposição. A linguagem torna-se uma arma para demarcar território e sinalizar virtude dentro da própria tribo. Chamar Mário Gomes de “canastrão” ou Zezé Di Camargo de “oportunista” por razões políticas não contribui em nada para o debate público; apenas envenena o poço e reforça a polarização. Este é o ambiente natural da política, onde o poder é conquistado não pela excelência ou pela capacidade de servir aos outros, mas pela habilidade de mobilizar uma base contra um inimigo comum, seja ele real ou fabricado.

A judicialização dos conflitos, como as ações movidas por Cássia Kis, é outra consequência dessa guerra cultural. Quando o debate civilizado falha, as partes recorrem ao braço armado do Estado — o Judiciário — para resolver disputas que, em uma sociedade mais saudável, seriam resolvidas pela reputação, pelo ostracismo social ou simplesmente pela indiferença. No entanto, ao buscar a sanção do Estado, os indivíduos reforçam o poder da mesma entidade que, em última análise, ameaça a liberdade de todos. A candidatura de Abreu é o passo seguinte nesse processo: não mais apenas usar o Estado como árbitro, mas tornar-se parte dele, ganhando o poder de criar as próprias regras do jogo e punir os adversários de forma “legal”.

A Ideologia da Intervenção: O Projeto por Trás da Persona

Por trás da figura combativa e da persona midiática, existe um projeto político bem definido, representado pela filiação de José de Abreu ao Partido dos Trabalhadores. Trata-se de uma ideologia que vê o Estado não como um mal necessário a ser limitado, mas como a principal ferramenta para a construção de uma sociedade supostamente mais justa e igualitária. Esta visão, em suas várias formas socialistas e social-democratas, parte do pressuposto de que um grupo de planejadores centrais, dotados de poder coercitivo, pode alocar recursos de forma mais eficiente e moral do que milhões de indivíduos interagindo livremente no mercado. Esta é uma premissa que a teoria econômica e a história do século XX refutaram exaustivamente. A tentativa de substituir a ordem espontânea do mercado pela ordem deliberada do governo leva, invariavelmente, ao caos, à escassez e à tirania.

O grande erro do socialismo, como demonstrado por Ludwig von Mises, não é apenas moral — por sua dependência da coerção —, mas também epistemológico. É impossível para um comitê central calcular a melhor forma de utilizar os recursos da sociedade na ausência de um sistema de preços genuíno, que só pode surgir a partir da propriedade privada e das trocas voluntárias. “[Ludwig von MISES | Socialism: An Economic and Sociological Analysis]”. Sem os preços para sinalizar a escassez relativa dos bens e guiar as decisões de produtores e consumidores, o planejamento central é um voo cego. As consequências são conhecidas: filas, desabastecimento, má qualidade dos produtos, corrupção e um declínio geral do padrão de vida. A defesa desse sistema, apesar de suas falhas catastróficas, persiste não por sua viabilidade econômica, mas por sua promessa de poder àqueles que o administram.

A persona de José de Abreu, com sua disposição para o confronto e sua visão de mundo dividida entre opressores e oprimidos (onde ele e seu grupo são, naturalmente, os heróis libertadores), é o perfil psicológico ideal para o proponente de tal ideologia. O projeto intervencionista não pode ser implementado através da persuasão pacífica, pois ele exige que as pessoas ajam contra seus próprios interesses e julgamentos. Ele requer força. Requer a disposição de confiscar a riqueza de alguns para distribuí-la a outros, de proibir certas transações em nome de um “bem maior”, de calar vozes dissidentes que ameacem o projeto. A combatividade do ator não é um desvio de seu idealismo político; é a sua expressão mais honesta. Para realizar a utopia socialista, é preciso estar disposto a quebrar alguns ovos — ou, no caso, a violar os direitos fundamentais de incontáveis indivíduos.

O Aparato Político-Partidário: Caciques e a Busca pelo Poder

O anúncio da pré-candidatura de Abreu não foi um ato isolado, mas uma decisão endossada e promovida por uma figura proeminente do partido no Rio de Janeiro, Washington Quáquá, descrito como um dos “maiores caciques da legenda”. Este detalhe é crucial para entender a dinâmica do poder político. Partidos não são meramente agremiações de cidadãos com ideias em comum; são estruturas hierárquicas, verdadeiros cartéis que competem pelo controle do aparato estatal. A figura do “cacique” político expõe a natureza feudal da política moderna, onde o apadrinhamento, a lealdade pessoal e a capacidade de mobilizar currais eleitorais valem mais do que princípios ou competência administrativa. A escolha de um candidato como Abreu, com sua alta visibilidade midiática e seu apelo a um nicho ideológico específico, é uma decisão estratégica dentro dessa lógica de mercado político.

O Estado, como analisado por Murray Rothbard, não é uma entidade que serve ao “bem comum”, mas sim uma organização que vive de forma parasitária sobre a produção da sociedade civil. “[Murray N. ROTHBARD | Anatomy of the State]”. Os políticos e burocratas que o compõem não geram riqueza; eles a expropriam através de impostos e a redistribuem para si mesmos e para os grupos de interesse que lhes dão apoio. Nesse contexto, a filiação partidária e a bênção de um “cacique” funcionam como um passe de entrada para este sistema de espoliação organizada. O objetivo não é servir ao eleitor, mas capturar uma fatia do orçamento estatal, obter cargos para aliados e usar o poder regulatório para beneficiar amigos e punir inimigos. A popularidade de um ator controverso é um ativo valioso nesse jogo, pois pode ser convertida em votos que, por sua vez, são convertidos em poder e influência dentro da máquina partidária e governamental.

O sistema democrático, longe de ser um freio a esse processo, é o que o legitima. Ele cria a ficção de que, ao escolher entre os candidatos apresentados pelos cartéis partidários, o povo está exercendo sua soberania. Na realidade, está apenas decidindo qual grupo de “caciques” e apadrinhados terá o controle do Leviatã nos próximos anos. A candidatura de Abreu, impulsionada por uma figura estabelecida do partido, demonstra que o acesso ao poder não é uma questão de mérito ou de representação popular genuína, mas de ser aceito e promovido pela oligarquia que controla a estrutura partidária. É um sistema fechado que se autoperpetua, oferecendo ao público um espetáculo eleitoral para mascarar a contínua concentração de poder e a extração de recursos da população produtiva.

O Teatro da Presidência e a Banalização do Poder

Em 2019, José de Abreu protagonizou um episódio revelador: declarou-se presidente do Brasil, numa sátira a Juan Guaidó na Venezuela. Embora apresentado como uma peça de humor e crítica política, o ato inadvertidamente expôs uma verdade profunda sobre a natureza do poder estatal. Ao se autoproclamar presidente, mesmo que de forma jocosa, ele demonstrou que o poder, em sua essência, não deriva de um mandato divino ou de um contrato social, mas da percepção e da aceitação. A autoridade do Estado reside, em última instância, na crença generalizada de que sua autoridade é legítima. O gesto de Abreu, ao imitar a tomada de poder, revelou a fragilidade e a arbitrariedade dessa crença. Se qualquer um pode se declarar presidente, o que torna o “presidente real” legítimo, senão a força bruta para impor sua vontade?

Este episódio de teatro político banaliza o poder, mas de uma forma que ilumina sua verdadeira natureza. Ele sugere que a presidência é um papel, uma fantasia, um personagem a ser interpretado. E, de fato, a política moderna é dominada pelo espetáculo, pela imagem e pela narrativa, em detrimento da substância e dos princípios. O político-ator não é uma anomalia; é a norma. O que importa não é a solidez de suas propostas econômicas ou seu respeito pelos direitos individuais, mas sua capacidade de projetar uma imagem de força, compaixão ou autenticidade que ressoe com um determinado segmento do eleitorado. A “autoproclamação” de Abreu foi uma performance, mas a política profissional é apenas uma performance mais elaborada e com consequências muito mais reais e perigosas.

A ironia final é que, após ridicularizar a tomada de poder simbólica, o ator agora busca o poder real através dos mecanismos “legítimos” do sistema que ele mesmo expôs como sendo, em parte, uma farsa. Ele passa de crítico do teatro a aspirante a um papel principal no mesmo espetáculo. Isso demonstra que a crítica era seletiva, direcionada não à natureza do poder em si, mas apenas àqueles que o detinham e de quem ele discordava. A ambição agora é fazer parte do elenco, subir ao palco e ter a sua vez de interpretar o papel de governante. A lição que deveria ter sido aprendida — a de que o poder concentrado é inerentemente arbitrário e perigoso — foi ignorada em favor da oportunidade de exercê-lo.

A Ilusão da Representatividade: Por que o Voto Não Altera a Rota

A candidatura de uma figura como José de Abreu levanta questões fundamentais sobre o conceito de representatividade democrática. A eleição de um deputado significa que os interesses, valores e desejos de centenas de milhares de eleitores serão efetivamente “representados” no Congresso? Ou será que o sistema eleitoral funciona primariamente como um mecanismo de legitimação, concedendo um verniz de consentimento popular a um processo que, na prática, é controlado por elites partidárias e grupos de interesse? A ideia de que um único indivíduo, com suas próprias paixões, preconceitos e histórico controverso, possa representar a vontade de uma massa heterogênea de pessoas é, em si, uma ficção. Na melhor das hipóteses, ele representará a si mesmo e aos interesses do cartel partidário que o promoveu.

O sistema é projetado para produzir resultados como este. A visibilidade na mídia, a capacidade de gerar polêmica e de mobilizar paixões tribais são ativos muito mais valiosos em uma campanha eleitoral do que a moderação, o conhecimento técnico ou o compromisso com princípios universais de justiça. O eleitor não é apresentado a um cardápio de opções filosóficas coerentes, mas a uma série de personalidades e slogans. A escolha, portanto, não é entre governar e não governar, ou entre liberdade e controle, mas entre diferentes administradores do aparato de controle. A oferta política se resume a decidir se a espoliação legal será conduzida com uma retórica progressista ou conservadora. Em ambos os casos, a espoliação continua, e o poder do Estado sobre o indivíduo se expande.

A crítica radical à democracia, como a elaborada por pensadores como Lysander Spooner, argumenta que o próprio ato de votar não significa consentimento. Votar em um sistema coercitivo é, muitas vezes, uma tentativa de autodefesa, uma escolha pelo “mal menor” na esperança de mitigar os danos que o Estado infligirá. “[Lysander SPOONER | No Treason: The Constitution of No Authority]”. No entanto, a participação no processo acaba por reforçar a legitimidade do resultado. A candidatura de Abreu, portanto, não é o problema; é um sintoma da doença. O problema é o próprio sistema que canaliza as disputas sociais para uma arena de soma zero, onde a única solução é a imposição da vontade de um grupo sobre outro através da força da lei. A verdadeira escolha não está na urna, entre um ator de esquerda ou um empresário de direita, mas na decisão de cada indivíduo de buscar formas de interação social baseadas na voluntariedade, na propriedade privada e na cooperação pacífica, fora do alcance do teatro político.

Conclusão: Para Além do Palco, a Escolha Entre Liberdade e Servidão

A jornada política de José de Abreu, do cárcere de 1968 à iminente campanha de 2024, não é uma história de redenção ou de luta por liberdade, mas um exemplo paradigmático da cooptação de ideais pela busca do poder. Ela ilustra como a oposição a uma forma de tirania pode facilmente se transformar na defesa de outra, desde que a nova forma prometa poder e status aos seus adeptos. O espetáculo em torno de sua pré-candidatura, com seu histórico de agressões e sua retórica divisiva, distrai do fato essencial: a natureza fundamentalmente coercitiva do Estado que ele almeja integrar. A discussão se concentra na personalidade do ator, em suas polêmicas e em seu passado, enquanto a instituição do poder político — com sua capacidade de taxar, prender e matar — permanece inquestionada.

O verdadeiro conflito da nossa era não é entre a esquerda de Abreu e a direita que ele combate. Essas são apenas duas facções lutando pelo controle do mesmo instrumento de dominação. O conflito real, e muito mais fundamental, se dá entre o indivíduo e o Estado; entre a sociedade voluntária, baseada em trocas pacíficas e no respeito à propriedade, e a sociedade politizada, baseada na coerção, no privilégio e na espoliação legal. Cada nova eleição, cada novo candidato polêmico, serve para reforçar a ilusão de que a solução para os problemas criados pelo poder político é mais poder político, apenas em mãos diferentes.

Olhar para além desse palco político significa reconhecer que a segurança e a prosperidade não emanam de leis e decretos, mas da criatividade humana liberada das amarras do controle estatal. Significa entender que a justiça não é alcançada pela redistribuição forçada da riqueza, mas pelo respeito absoluto aos direitos de cada indivíduo de viver, de ser livre e de buscar a felicidade à sua maneira, desde que não inicie agressão contra outros. A pré-candidatura de José de Abreu, com toda a sua bagagem simbólica e contraditória, oferece uma oportunidade valiosa, não para escolher um lado na falsa dicotomia política, mas para rejeitar o jogo inteiro e começar a pensar seriamente em alternativas baseadas na liberdade individual e na ordem espontânea.

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O Ágora 134 é um instituto dedicado à produção e publicação de notícias e análises sobre poder, economia, tecnologia e liberdade. Sua atuação é orientada pelo princípio da não agressão e pela defesa da vida, da liberdade e da propriedade como fundamentos éticos da convivência social. O número 134 que compõe seu nome representa seus pilares centrais: 1 princípio — o Axioma da Não Agressão; 3 direitos fundamentais — vida, liberdade e propriedade; e 4 caminhos de ação — Ágora, Autonomia, Ação e Anonimato, que orientam a reflexão, a prática e a organização em uma sociedade livre.

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